Sexta-feira, Janeiro 19, 2007

O moço e (a morte da) a velha



Tenho ido a praia com frequência, mas já não tenho mais visto a velha. Talvez ela tinha ido visitar a filha em Brasília, ou o neto doente que mora no Acre, ou talvez tenha até morrido. Vez ou outra vejo um cara estranho (sim, isso foi uma alusão a uma música de Los Hermanos) de óculos fundo-de-garrafa, calvície, camisa regata verde com detalhes amarelos onde se lê "Brasil" e um bom bucho de choppe. Cara de quem é seco com a vida e faz a vida dos filhos, no mínimo, um inferno.

Eu tenho medo de ficar assim quando tiver essa idade. De quando em vez me pego fazendo coisas que não aprovo no comportamento do meu pai principalmente; "Falei/Agi igual ao meu pai agora". Meu avô é outro ranzinza. "Calma, 'vô, o show só vai acabar quando eles tocarem 'A Flor'!". "Nem a flor, nem o ramo, nem a folha, nem o galho! Eu já estou CAN- SA- DO-!". Eles reclamam, reclamam, e reclamam, e eu reclamo deles por reclamarem tanto, e eles reclamam de mim por reclamar deles. Eu reclamarei, tu reclamarás, ele reclamará, nós reclamaremos, vós reclamareis, eles reclamarão. E eu sou tão novo pra estar reclamando tanto.

Cadê a infância?! Cadê a adolescência?! Há dez anos atrás pessoas da minha idade trocavam fitas de Super Nitendo ou Mega Drive. Hoje eu não preciso nem dizer o que estão fazendo os jovens. A criança brasileira é a mais estressado mundo. É a líder em medo em relação a segurança. 32% de nossas crianças usam o choro para liberar o estresse, enquanto a média mundial é de 25%. 87% das crianças brasileiras temem o terrorismo. Quando eu tinha oito anos eu tinha medo do escuro e de que faltasse luz quando eu estivesse sozinho em casa. Pare o mundo que hoje eu quero descer. "Eu quero mudar o mundo, mesmo que não ganhe nada com isso não".

Domingo, Dezembro 10, 2006

Papai Noel Nu



Era um menino frustrado com essas coisas de Natal. Ele nunca se sentia satisfeito com o que ganhava. Pra começar, morria de medo daquele velho gordo e vestido de vermelho. Falar com ele no shopping, então? Que sacrifício! Tremia a voz, não encostava para tirar foto de modo algum. “Hou hou hou hou hou” soava como “Vou te matar”. No Natal, ao contrário das outras crianças preferia dormir antes da meia-noite, ou pelo menos estar bem longe da árvore de Natal nessa hora.

A sua avó sempre gostou de invenções, inventar, inventos. Era uma inventora, mas não dessas que amarra um relógio no pulso e inventa uma nova modalidade de relógio. Era uma inventora de massinhas de modelar caseiras em tardes de férias, uma inventora de porquinhos de papel maché modelados em uma bexiga de festa, uma inventora de corridas-de-saco com a vizinhança no zoológico, uma inventora de (es/his)tórias. O bom velhinho sempre esquecia em sua casa o seu saco vermelho e grande recheado de presentes! O menino morria de medo do saco, talvez ele achasse que o saco saísse andando qualquer hora e o engolisse.

Uma vez o menino pediu ao Papai Noel um boneco do John Smith. Coitado. Acabou ganhando um boneco grotesco e violento que dizia “Vamos lutar!” quando se apertava sua barriga. “Ah mãe, esse Papai Noel é muito louco!”. No ano seguinte o menino estava decidido, queria algo grande e grandioso; uma piscina em forma de coração com azulejos no fundo onde poderia se ler “Marcela, eu te amo” e um toboágua que saísse da janela do quarto e desse pra piscina. Pudera, também não ganhou. Papai Noel não era de fato alguém confiável.

No ano seguinte ele pediu um cachorro. E ganhou um cachorro. De pelúcia. Não, não, não. “Ó mãe, esse Papai Noel já ta caduco! Ele precisa anotar os presentes! Que saco! Ele nunca traz as coisas certas!”. No ano seguinte o menino pediu uma bicicleta. Ficou no primeiro andar de sua casa, não queria estar de modo algum próximo à árvore de Natal. Meia-noite, hora de descer e ver se Papai Noel havia deixado o presente na árvore. Finalmente o Papai Noel havia acertado o presente! Depois de anos e anos de reclamações e quase-processos no PROCON o Papai Noel havia tomado juízo. O menino achou um cartão amarrado na roda, abriu. Era a letra do seu pai. Então foi assim que o Papai Noel ficou nu pra mim.



O Moço e a Velha
Em Breve

Quinta-feira, Dezembro 07, 2006

A Velha e o Moço


Toda vez que eu vou à praia aqui e acolá eu fico olhando pra uma velhinha sentada no calçadão. Ela sempre está sentada de costas para o mar, uma sandália de couro, um vestido branco-e-preto com estampas demasiadamente bregas pro nosso tempo e notáveis óculos. Cara pálida, olhos claros, cabelos arrumados. Que será que ela tanto pensa? Será que pensa no filho que mora no Macapá, ou na neta doente que está em Brasília, ou na morte da bezerra? Lembro que minha falecida avó entrava em depressão todos os outubros. Era terrível para ela, o mês da morte do meu avô. Será que essa velha pensa algo igual? Toda vez que passo por ela dá uma louca vontade de sentar do lado dela e perguntar sobre a vida dela. Ela no mínimo, iria achar um pouco estranho.
Às vezes fico imaginando o que será de mim quando os fios brancos preencherem minha cabeça, se é que vão preencher, porque já tenho leves entradas denunciando minha futura calvície. Quando a gente é novo a gente espera tanta coisa, faz de tudo o clímax de nossas vidas. Eu sou assim. Tenho a consciência de que num futuro próximo vou dizer; "Ah que besteira, uma fase da adolescência, e só". Mas não, não, não. Não dá mesmo pra pensar assim agora. Isso é escroto. É ter a consciência de que se é exagerado e ao mesmo tempo inexperiente, conhecer a verdade e não conseguir agir corretamente.
Uma vez estava tendo um jantar aqui em casa, minha vó (diabética) estava na ocasião, e claro, queria comer tudo que não podia como sempre. Ela era engraçada nesse ponto. Às vezes pegavam ela com a boca cheia de farinha e diziam; "Mas vovó, comendo farinha?!". Ela, com a boca cheia, espalhando os grãos para todos os lados dizia; "Não, não tou comendo". Era uma velha ranzinza. Meu tio então disse; "Deixa mamãe comer. Só tem três coisas boas nessa vida, as outras coisas vem com elas. São elas; comer, beber e fufu. Vocês sabem, papai morreu faz muito tempo, fufu mamãe já no faz há muito tempo, beber ela também no pode, então deixa ela comer porra!".
Eu tenho uma ânsia por fazer coisas que realmente me gratifiquem no futuro. Quero contar histórias pro meus netos. Engana-se você se eu quero começar com "Era um vez...", pretendo começar com "No meu tempo..." ou com "Quando eu tinha a tua idade...". Qualquer dia eu ainda falo com aquela velha, quero saber o que ela tanto pensa. Ela pode.