O moço e (a morte da) a velha

Tenho ido a praia com frequência, mas já não tenho mais visto a velha. Talvez ela tinha ido visitar a filha em Brasília, ou o neto doente que mora no Acre, ou talvez tenha até morrido. Vez ou outra vejo um cara estranho (sim, isso foi uma alusão a uma música de Los Hermanos) de óculos fundo-de-garrafa, calvície, camisa regata verde com detalhes amarelos onde se lê "Brasil" e um bom bucho de choppe. Cara de quem é seco com a vida e faz a vida dos filhos, no mínimo, um inferno.
Eu tenho medo de ficar assim quando tiver essa idade. De quando em vez me pego fazendo coisas que não aprovo no comportamento do meu pai principalmente; "Falei/Agi igual ao meu pai agora". Meu avô é outro ranzinza. "Calma, 'vô, o show só vai acabar quando eles tocarem 'A Flor'!". "Nem a flor, nem o ramo, nem a folha, nem o galho! Eu já estou CAN- SA- DO-!". Eles reclamam, reclamam, e reclamam, e eu reclamo deles por reclamarem tanto, e eles reclamam de mim por reclamar deles. Eu reclamarei, tu reclamarás, ele reclamará, nós reclamaremos, vós reclamareis, eles reclamarão. E eu sou tão novo pra estar reclamando tanto.
Cadê a infância?! Cadê a adolescência?! Há dez anos atrás pessoas da minha idade trocavam fitas de Super Nitendo ou Mega Drive. Hoje eu não preciso nem dizer o que estão fazendo os jovens. A criança brasileira é a mais estressado mundo. É a líder em medo em relação a segurança. 32% de nossas crianças usam o choro para liberar o estresse, enquanto a média mundial é de 25%. 87% das crianças brasileiras temem o terrorismo. Quando eu tinha oito anos eu tinha medo do escuro e de que faltasse luz quando eu estivesse sozinho em casa. Pare o mundo que hoje eu quero descer. "Eu quero mudar o mundo, mesmo que não ganhe nada com isso não".




